Magnus Carlsen, o gênio que trocou o futebol pelo xadrez

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Por GLOBOESPORTE.COMMonaco, França

Quem olha para Magnus Carlsen pode achar que ele é apenas mais um jovem de 20 anos normal. O norueguês, desde pequeno, sempre gostou de futebol, torce pelo Real Madrid e é fã dos brasileiros Ronaldo e Roberto Carlos. No entanto, o rosto de criança esconde o maior prodígio da história do xadrez. Aos 13 anos, venceu os maiores jogadores do mundo e se tornou um dos atletas mais jovens a receber o título de Grande Mestre, a mais alta qualificação do xadrez. E no ano passado, aos 19, virou o líder do ranking mundial, tornando-se o mais rápido a alcançar esse posto.

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- Eu sigo futebol na TV o tempo todo, especialmente os campeonatos da Espanha e da Inglaterra. Sou torcedor do Real Madrid, muito fã do Ronaldo e do Roberto Carlos. Acho que até teria sido um bom jogador, mas acho que estou bem no xadrez. Está valendo a pena, porque estou criando umas coisas legais - disse Carlsen.

O jogo de xadrez simula um conflito entre dois exércitos: 16 peças para cada oponente que se movimentam em um tabuleiro com 64 casas. Milhões e milhões de possibilidades e posições, tudo isso viajando na mente humana em uma velocidade incrível. Carlsen usa o cérebro de uma forma única, especial, que pode revolucionar tudo o que sabemos sobre o raciocínio e o pensamento. Mas você pode esquecer aquela imagem estereotipada de um nerd atrás de um computador. O norueguês virou celebridade, garoto-propaganda de uma multinacional de roupas, viaja o mundo, passeia com atrizes de Hollywood e conquista milhares de seguidores nas mídias sociais.

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Magnus Carlsen faz parte de uma geração que cresceu desde cedo com uma companhia especial: os computadores. Para conhecer mais da história desse prodígio e da sua família, oEsporte Espetacular foi até Monaco, no Sul da França, acompanhar um torneio de xadrez entre os melhores do planeta. Segundo o pai, Henrik Carlsen, o filho mostrava habilidades especiais já na infância.

- Magnus tinha algumas habilidades que nos chamavam a atenção. Ele conseguia montar quebra-cabeças de 50 peças antes dos 2 anos. Com 4 ou 5, montava coisas fabulosas com Lego. Ele tinha uma habilidade incrível de concentração, de ficar focado em alguns tópicos por bastante tempo.

Magnus Carlsen (Foto: TV Globo)Aos 20 anos, Magnus Carlsen em entrevista ao repórter Guilherme Roseguini (Foto: TV Globo)

Henrik adorava xadrez, então, pegou um tabuleiro e tentou ensinar Magnus. Mas, aos 6 anos, o garoto não quis nem saber daquele jogo parado, gostava mesmo era de jogar bola todos os dias. Vendo que iria perder a briga, o pai não forçou a barra na ocasião. E foi por volta dos 9 anos que Magnus começou, espontaneamente, a jogar xadrez... no computador, nada de tabuleiro. E o pai apoiou:

- O computador é uma grande ferramenta para o aprendizado. Ele usava o computador para várias outras coisas, e se sentiu confortável naquele ambiente. Os programas para jogar xadrez começaram a aparecer nos anos 90, justamente na geração dele - lembrou Henrik.

Jogar partidas com gente do mundo todo, desafiar amigos e estudar lances. Esses foram alguns dos atrativos que chamaram a atenção de Magnus para jogar xadrez pelo computador. Na época, o menino só queria aprender o jogo para vencer as grandes rivais: suas irmãs mais velhas.

- Entre os 9 e os 10 anos, ele começou a passar várias horas do dia jogando e estudando xadrez. Mas não como uma obrigação, nunca pedimos nada. Era um hobby. Ele tinha essa vontade. Primeiro, queria ganhar das irmãs. Depois começou a estudar para me derrotar. E asssim foi - contou Henrik.

- Eu nunca tive mesmo um jeito científico de estudar xadrez. Eu simplesmente seguia minha curiosidade, minhas ideias. Acho que isso foi muito importante - revelou Magnus.

Eu acho que tenho um 'felling' natural para o jogo. Tenho um estilo universal, disposto a correr risco. Não sigo muito os padrões. Se me dão uma ideia de tentar algo novo, eu estudo um pouco e vou em frente. Gosto de mudar de territórios a todo momento no xadrez."
Magnus Carlsen

O processo de formação utilizado pelo menino norueguês era bem diferente dos adotados pelos grandes jogadores do passado. Um dos Grandes Mestres de xadrez, o brasileiro Gilberto Milos tenta explicar as mudanças com o tempo.

- Enquanto nós nos espelhávamos nos melhroes jogadores do mundo, como Boby Fischer, e analisávamos as partidas dele, ele se espelha no melhor jogador de hoje, que é o computador, devido à capacidade de cálculo. O computador é melhor porque calcula mais, então ele desenvolve mais esse lado e de alguma forma chega próximo da capacidade de cálculo do computador. Não é igual, mas ele tira uma vantagem disso.

- No computador, você consegue informações muito rápido. O que significa que você consegue absorver conhecimento muito mais rápido do que no passado. Hoje, podemos aprender coisas em cinco anos que no passado levariam 20 - decretou Milos.

Basicamente, Magnus Carlsen começou aos poucos a pensar como um computador. Por conta da sua formação, ele desenvolveu uma habilidade espetacular de calcular e memorizar. Magnus guarda na cabeça cerca de 500 mil jogadas (meio milhão de possibilidades).

- Quando você treina com o computador, contra um adversário que realmente te coloca problema de cálculos muito complexos, você certamente é mais exigido e desenvolve mais. Não sei exatamente como é esse processo, mas basicamente é isso. Você treina com alguém muito melhor do que você e a tendência é se aproximar disso. E como o computador é muito melhor no quesito cálculo, a tendência é que você melhore seu cálculo. Ele é mais exigido que as gerações anteriores, então o resultado é superior - explicou Gilberto Milos.

O trunfo de Magnus Carlsen é conseguir calcular mais rápido e, com isso, ele imagina como estará o tabuleiro de xadrez 20 lances à frente das pessoas comuns. Fica mais fácil prever as ações dos rivais e escolher a jogada certa. É o que conta o especialista no esporte Dirk Geuzendam.

- Você olha para o tabuleiro em um jogo dele e diz: não existe saída, está acabado. E aí, logo depois, Magnus escapa, com algo que ninguém havia pensado. Parece simples, mas é incrivelmente difícil fazer isso em um jogo de xadrez. Poucas pessoas têm esse talento: escolher precisamernte a jogada certa e fazer o que ninguém havia imaginado. É o que o Magnus faz.

Com essa habilidade toda, aos 13 anos Magnus já estava disputando torneios internacionais. Ele enfrentou e venceu, para a surpresa de todos, Anatoly Karpov, o melhor jogador do mundo por dez anos. O próximo desafio foi encarar aquele que é considerado até hoje o melhor de todos os tempos: Garry Kasparov, campeão mundial aos 22 anos e dono das mais altas pontuações internacionais do xadrez. Magnus conseguiu um empate contra o gênio do esporte, e parece que assustou o russo.

- Depois desse jogo o Kasparov foi embora correndo, nervosíssimo. Mas depois mandou um de seus livros autografados para a nossa casa e disse que podia dar umas aulas, uns conselhos a Magnus. Ele não se interessou muito no começo, mas tempos depois se deu conta que Kasparov sabia muito, muito mesmo. E que poderia ajudá-lo - disse Henrik Carlsen.

Imagine isso: o melhor jogador de hoje com aquele que foi talvez o melhor da história. É a combinação dos sonhos."
Dirk Geuzendam

A partir dali, Magnus ganhava um grande tutor, o que faltava para o menino deslanchar de vez. O russo adorava computadores e sabia utilizá-los para analisar jogos e melhorar a performance. E foi isso que Kasparov ensinou a Magnus, a usar melhor a máquina. O menino foi lapidado até chegar ao posto de número 1 do ranking da federação internacional.

- Depois de um tempo, aprendi a usar mais os computadores para me prepaparar para enfrentar meus oponentes, porque existe muita base de dados sobre os jogos. E também para analisar meu próprio jogo para analisar meus erros - contou Magnus.

A questão central que os cientistas tentam entender é como Magnus consegue raciocinar tão rápido? Algumas pistas já surgiram. A teoria é: quando um jogador comum pensa para fazer um lance no xadrez, ele usa apenas o lado esquerdo do cérebro. Já Magnus e outros grandes jogadores conseguem trabalhar os dois lados, usando assim o dobro da capacidade de raciocínio e memória. Por isso é possível calcular e memorizar tanto.

O prodígio Magnus Carlsen voltou a chamar a atenção do mundo para o xadrez. Nos anos 80, por conta da Guerra Fria, o que acontecia no tabuleiro era questão de Estado. EUA x URSS ou Bobby Fischer x Boris Spassky. Norte-americano e soviético chegaram a decidir um título mundial como se fosse final de Copa do Mundo de futebol. Nos anos 90, Homem x Máquina. Garry Kasparov também ganhou os holofotes quando desafiou computadores. Depois dele, o interesse pelo jogo caiu, até Magnus Carlsen.

- Todo grande jogador traz algo novo ao jogo, mas Magnus é especial. Ele parece agregar todo o conhecimento técnico dos campeões do passado, e consegue impor sua juventude e novas ideias para explorar novas posições, novos caminhos. Ele é um desbravador, e o xadrez precisa de desbravadores - finalizou Dirk Geuzendam.

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Nove anos. E bicampeão de xadrez.

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por Paula Thomaz, da Carta Capital
133 Nove anos. E bicampeão de xadrez.

Escola do campeão brasileiro de xadrez introduziu a atividade para combater excesso de medicamentos para "déficit de atenção" dos alunos. E deu certo.

Em vez de caderno, tabuleiro branco e preto; no lugar de estojo com canetas e lápis, peões, cavalos, bispos, um rei e uma dama. É com esses objetos que Gianluca Jorio Almeida passa a tarde na escola em que estuda, no Rio de Janeiro. Rotina de um bicampeão brasileiro xadrez. Com apenas nove anos de idade, Gianluca ganhou mais uma vez o Campeonato Brasileiro de Xadrez Escolar na categoria dos alunos que estão no 4º ano, que aconteceu de 23 a 25 de setembro, em São Sebastião do Paraíso, Minas Gerais.

Agora, ele se prepara para o primeiro mundial, a ser disputado no Brasil, em Caldas Novas, Goiás, em novembro.

Gianluca é um desses garotos que descobrem um talento e não param mais de treinar. O interesse pelo xadrez surgiu aos quatro anos de idade, quando o menino viu o pai ensinando o irmão, num momento de dedicação aos filhos depois do trabalho. Na escola, o desempenho do aluno chamou a atenção do professor Fernando Paulino Chagas, hoje seu treinador. E da brincadeira, aflorou no garoto um dom que hoje é sua grande paixão.

No quarto, poucos brinquedos. As prateleiras são ocupadas mesmo pelos mais de 20 troféus que já ganhou. “Não consigo imaginar meu filho fazendo qualquer coisa que não tenha xadrez no meio”, diz Jeanpauline Jorio Almeida, mãe de Gianluca. Na rotina, dez horas semanais dedicadas a treinos pelo computador, na escola e com o técnico particular.

Com tanto esforço, vale a pena dar aquele apoio financeiro conhecido como “paitrocínio” e “vótrocínio também”, diz Jeanpauline. Quase todos na família ajudam a bancar as participações nos torneios do futuro “mestre internacional”, título concedido pela Federação Internacional de Xadrez a quem consegue pontuações altas – o que ele afirma ser seu objetivo. Ano passado, a mãe foi com o filho para a Grécia. Lá, Gianluca sentiu um frio na barriga muito grande e o peso de disputar um campeonato mundial. “Ele jogou com russos, turcos e africanos, não se interessava pelo inglês”. Desde então, está matriculado num curso, que é para poder entender o que diz o árbitro. Ele ficou em 67º lugar entre 150 jogadores, mas é do lado de cá que o garoto treina e se destaca. Gianluca é também bicampeão estadual e vice-campeão pan-americano.

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A mais recente conquista foi o 1º lugar na categoria 4º ano do Campeonato Brasileiro de Xadrez Escolar. Foto: Divulgação

A disciplina tem ajudado no desempenho do enxadrista mirim na escola, conta a mãe. Como ele começou cedo, ela acredita que o xadrez influenciou muito na formação de Gianluca. “A paciência, preparação, perseverança, com certeza são coisas que ele adquiriu com o xadrez, e são características que fazem parte da vida dele como um todo, inclusive na escola.”

É o que pensa a lenda russa do xadrez Gary Kasparov, que esteve no Brasil no início deste mês. Desde que se aposentou, em 2005, ele viaja o mundo para promover o xadrez entre as crianças. No Distrito Federal, ele chegou a afirmar que “o principal papel de projetos sociais que ensinam xadrez para crianças não é formar campeões. É usar o jogo como uma ferramenta para que o desempenho escolar das crianças melhore”.

No colégio Franco-Brasileiro, do Rio de Janeiro, onde o menino estuda, a inclusão do xadrez nas atividades da escola foi proposital. De acordo com Elaine Azevedo, coordenadora pedagógica, “o xadrez ajuda no raciocínio lógico, na concentração do aluno, trabalha estratégia, ajuda o aluno na percepção espacial. Contribui também com a matemática e na interpretação”. Os alunos com déficit de atenção também são grandes beneficiados pela inclusão do xadrez nas atividades da escola. “Quando a gente viu alunos tomando medicação, com atendimento fora da escola, com dificuldade de realizar uma prova, a ponto de ter de separá-lo para realizar prova sozinho, nós começamos a pensar em estratégias para ajudar esses alunos, e o xadrez foi um grande parceiro.”

Em 2009, a cidade de São Paulo também apostou no xadrez e lançou o programa Xadrez Movimento Educativo, por meio da Secretaria municipal de Educação, e já conquistou 36 mil crianças de 300 escolas públicas paulistanas.

Além dos alunos, quem ganha também com o ensino de xadrez nas escolas é o próprio xadrez, como afirma Eduardo Passos Pereira, diretor-secretário do Clube de Xadrez São Paulo. Segundo Pereira, a principal fase para a popularização desse esporte passa pela inserção dele na escola. Cria um público que precisa de torneios, que consome literatura sobre o assunto, se filia a um clube ou participa de associações que tenham xadrez entre as atividades. É toda uma cultura que vai se formando aos poucos.

Pereira confia que o futuro do xadrez no Brasil está na escola. “A maior expressão do xadrez hoje é na área escolar mesmo. E o processo de massificação do esporte no Brasil tem que, necessariamente, passar por ela.”

Esse projeto da Secretaria de Educação de São Paulo ganha projeção e verba para expansão. É provável que nos próximos anos haja um crescimento da participação nos clubes, por exemplo. “É uma alternativa razoável, tanto do ponto de vista das competições como para o ensino nas escolas.”

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